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terça-feira, junho 27, 2006

A Escrita - Um Nascimento Humilde

“Embora os homens nasçam e morram há um milhão de anos, só passaram a escrever há seis mil anos.”
Etiemble


Existem, há dezenas de milhares de anos, inúmeros meios de transmitir mensagens através de desenhos, sinais, imagens. Entretanto, a escrita propriamente dita, só começou a existir a partir do momento em que foi elaborado um conjunto organizado de signos ou símbolos, por meio dos quais seus usuários puderam materializar e fixar claramente tudo o que pensavam, sentiam ou sabiam expressar.

Tal sistema não surge da noite para o dia. A história da escrita é longa, lenta e complexa. História que se confunde, se entrelaça, com a história do próprio homem, um romance apaixonante do qual nos faltam, ainda hoje, algumas páginas.

Tudo começa entre o Tigre e o Eufrates, na Mesopotâmia. Essa região do Oriente Médio, que se estende do golfo Pérsico a Bagdá (atual capital iraquiana), estava, entre o sexto e o primeiro milênio antes de nossa era, dividida entre a região da Suméria, ao sul, e a região da Acádia, ao norte.


Notas de compra e venda não podem ser registradas oralmente. Por esta razão tão prosaica, nasceu a escrita.

Sumerianos e acadianos, apesar de geograficamente muito próximos, falavam duas línguas tão díspares, tão diferentes, como o são o francês e o chinês. Povos altamente civilizados, viviam em pequenas comunidades, em torno de cidades como Babilônia, sob a autoridade de um soberano e a proteção de inúmeros deuses. Excluindo “funcionários” das cortes reais, sacerdotes e comerciantes, a população era composta de camponeses e pastores. Assim, se explicam as inscrições gravadas nas primeiras plaquetas de barro descobertas na região da Suméria, no sítio do grande templo da cidade de Uruk. As “plaquetas de Uruk” são constituídas de listas, relações, de sacos de grãos, de cabeças de gado, estabelecendo uma espécie de contabilidade do templo.

Os primeiros símbolos escritos são, pois, de contas agrícolas. Outras plaquetas informam sobre a organização social dos sumerianos. Assim, fica-se sabendo que a comunidade religiosa do templo de Lagash empregava 18 padeiros, 31 cervejeiros, sete escravos, um ferreiro, etc. Constata-se também que os povos sumerianos inventaram não somente a moeda, mas também o empréstimo, o crédito.

Enfim, graças às plaquetas encontradas nas escolas sumerianas instaladas nos templos, trazendo de um lado o modelo estabelecido pelo mestre, e, do outro, a cópia executada pelo aluno, pôde-se refazer as diferentes fases da evolução da escrita cuneiforme.

As primeiras inscrições dessa “escrita” que antes de tudo, no dizer dos especialistas, é um “resumo”, são desenhos simplificados, representando, de maneira estilizada, uma cabeça de boi, a fim de designar um boi; um triângulo pubiano com a fenda da vulva, a fim de representar a mulher, etc. São pictogramas onde cada uma representa um objeto ou um ser específico.

Combinando vários pictogramas, pode-se mesmo expressar uma idéia, donde o termo às vezes empregado ser o de ideograma. Por exemplo: se fossem acrescentados ao triângulo pubiano símbolos representativos de montanhas, tratar-se-ia de “mulheres estrangeiras”, vindas do outro lado das montanhas, isto é, escravo do sexo feminino.

Os pesquisadores arrolaram cerca de 1.500 pictogramas “primitivos” diferentes.

Ao longo dos séculos, o pictograma deixa de representar o objeto por ele designado para retirar seu significado do contexto.

Uma evolução singular e totalmente espantosa irá acontecer: em torno de 2.900 a.C., os pictogramas primitivos desaparecem; de novo, por razões simples e materiais: nessas regiões fluviais e pantanosas proliferavam a argila (o barro) e a cana (caniço – planta aquática).

No início, os contadores que traçavam as inscrições utilizavam plaquetas de barro sobre as quais desenhavam objetos e seres que desejavam representar, com a ajuda de cálamos, de talos de cana, pontiagudos. Com esses cálamos, ancestrais de nossas canetas-tinteiro e de nossas esferográficas, os sumerianos habituaram-se a talhar em bisel (obliquamente), e com eles imprimir na argila fresca sinais que tomavam a forma de “cantos” e de linhas, formando espécies de supostas “cunhas”, representações dos desenhos primitivos; daí a denominação de escrita “cuneiforme”, de cuneus, “cunha” em latim.

Por terem sofrido inumeráveis transformações ao longo dos séculos, nada restou de concreto de tais “sinais”. Entretanto, convém saber que o desenho dos pictogramas não era uma criação livre do artista, pois foram encontrados “catálogos”, listas, espécies de dicionários primitivos dos quais elaboraram os escribas. Cada símbolo podia, de acordo com o contexto, ter vários significados. O desenho de um pé podia dizer: “andar”, “pôr-se de pé”, “transportar”, etc. No momento em que os sinais passam a ter uma única significação, a deles mesmos, seu número diminui. Ficam em torno de 600, o que implica, para aqueles que sabem escrever, um enorme esforço de memória.

O rébus: um jogo infantil que será a chave mestra da escrita


Porém, existe algo mais extraordinário ainda: os símbolos que os escribas imprimiam nas plaquetas de barro mole, deixadas a secar ao sol ou colocadas a cozer em fornos, designavam coisas ou seres. O progresso decisivo consistiu em fazer com que os símbolos correspondessem aos sons das palavras, da língua falada.

Na origem da verdadeira escrita, encontra-se uma invenção notável: o fonetismo. E a astúcia admirável dos sumerianos, como também dos antigos egípcios, consistiu em utilizar um procedimento tão simples quanto um jogo infantil: o rébus – cartas enigmáticas. Eles tiveram a idéia de usar um pictograma, designando não o objeto por ele diretamente representado, mas um outro objeto cujo nome lhe era foneticamente semelhante. Como em nossos rébus onde um desenho de um gato (chat) e um desenho de um pote (pot) nada têm a ver com um felino e com um recipiente, mas com o conceito “chat-pot”, que vale por “chapeau” (chapéu).

O pictograma sumeriano da flecha “ti” designava “a vida”, pronunciada também “ti”.

Este é somente um exemplo dos mais simples, pois o fonetismo, desenvolvendo-se por longos períodos, teve uma estrutura muito complexa, a ponto de os escribas terem de usar símbolos “classificadores” que permitissem saber se o signo evocava um objeto ou um som, e assim tornar mais fáceis a escrita e a leitura.

Códigos jurídicos, tratados científicos ou obras literárias: daqui em diante, a escrita tudo poderá fixar.

Os acadianos, antepassados semitas dos árabes e dos hebreus, acabaram por dominar toda a Mesopotâmia. Seu predomínio era tanto que em torno do ano 2000 a.C. só se falava o acadiano na região. A escrita cuneiforme torna-se, então, uma escrita verdadeira, capaz de transcrever não somente a língua acadiana, mas também a antiga língua sagrada (como em nossos dias, o latim da Igreja).

Esta escrita será a do Império Babilônico que começa sua expansão a partir do ano 1760 a.C. e, também, a do Império Assírio, ao norte. Que chão percorrido desde as plaquetas de Uruk!

A escrita, nascida tão modestamente por exigência de simples contabilidade, vai tornando-se pouco a pouco, para os habitantes da Mesopotâmia, um sumário, um auxílio; depois uma maneira de guardar vestígios da língua falada; e, sobretudo, uma outra maneira de comunicá-la, até mesmo de pensar e de se expressar. Foi assim que os antigos sumerianos, acadianos, babilônios e assírios inventaram a correspondência, o correio e, até mesmo, os envelopes de barro! Entre mil outros usos notáveis, a escrita cuneiforme permitiu a transcrição de hinos religiosos, fórmulas divinatórias e o que se convencionou chamar de literatura. Os antigos sumerianos escreveram A Epopéia de Gilgamesh, da qual foram encontrados numerosos fragmentos dispersos, principalmente, o que foi conservado na biblioteca do rei assírio Assurbanipal (669-627 a.C.) em Nínive. Essa epopéia que prenuncia as grandes lendas da mitologia grega, particularmente “Os trabalhos de Hércules”, contém, também, uma extraordinária menção ao dilúvio, mais tarde descrito pela Bíblia.

Apesar de seu desenvolvimento, a escrita permanece um domínio reservado de uma elite, à qual ela confere mais poder.

Escrever e ler o cuneiforme não era coisa simples para os antigos habitantes da Mesopotâmia. Esta arte pertencia àqueles que sabiam desenhar os símbolos, conheciam sua pronúncia e seus diversos significados segundo o contexto. Os mestres da escrita, os escribas, constituíam, tanto na Babilônia quanto em Assur, na Assíria, uma casta aristocrática, por vezes mais poderosa do que os cortesãos iletrados e do que o próprio soberano. As escolas de escribas, que lhes eram reservadas, tinham uma disciplina severa, como testemunham numerosos documentos e “deveres e exercícios” de alunos da Mesopotâmia, chegados até nós. Saber escrever e ler era, então, sinônimo de poder e força. Tal saber será sempre um privilégio.

A escrita concebida na Mesopotâmia servirá como modelo a outras línguas bem diferentes da que lhes deu a luz.

O mais extraordinário na história dessa primeira escrita talvez seja o fato de ter ela se adaptado a outras línguas além do acadiano, como, por exemplo, o elamita, idioma do país de Elam cuja capital era Susa, hoje, terras do Irã, e que se apoderou dos caracteres cuneiformes. Mais espantoso ainda foi sua adoção pelos hititas, povo da Anatólia, atual Turquia asiática, que conheceu, entre 1400 e 1200 a.C., uma civilização poderosa e fica, de origem semita, falando uma língua indo-européia bastante diferente do acadiano. Contudo, apesar de usarem originariamente pictogramas próprios, diferentes dos sumerianos, souberam adaptar o cuneiforme.

O mesmo aconteceu com o “antigo persa”, antepassado do persa atual, moderno. O Império Persa (terras do atual Irã) viveu sua maior glória em torno de 500 a.C., utilizando também cuneiforme.
Portanto, entre o terceiro e o primeiro milênio a.C., a escrita cuneiforme, nascida entre o Tigre e o Eufrates, expandiu-se ao sul, na Palestina, e ao norte, na Armênia, onde imprimiu sua marca, respectivamente, no cananeu e no hurrita. Sem a penetração da escrita cuneiforme em outras línguas, sem dúvida alguma, os especialistas não teriam conseguido jamais decifrar seus mistérios.


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