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terça-feira, junho 27, 2006

A Contenda Original

Uma disputa clamorosa está na origem de três disciplinas humanísticas fundamentais: a retórica, a dialética e a filosofia. Ainda hoje é impossível pensar em qualquer uma delas sem ligá-las a um dos três protagonistas da famosa querela: Górgias em prol da retórica, Sócrates em prol da dialética e Platão em prol da filosofia. De fato, os anos entre 427 e 387 a.C. foram decisivos para todas as três disciplinas. 427, ano em que nasceu Platão, também foi o ano da chegada de Górgias a Atenas, com cinqüenta anos, e da sua primeira criação da retórica ateniense. 387, quando Platão tinha quarenta anos e o idoso Górgias, noventa (Sócrates morrera fazia doze anos, embora fosse mais novo que Górgias), foi o ano em que Platão opôs violentamente a filosofia à retórica no diálogo que tem por título o nome do adversário combatido, Górgias.

Não é fácil, à primeira vista, fixar linhas claras de demarcação entre retórica, dialética e filosofia, mesmo porque, mal as três disciplinas fizeram seu aparecimento explícito no pensamento ocidental – precisamente entre 427 e 387 a.C. -, logo se preocuparam mais em combater uma à outra do que em definir sua identidade. É mais fácil constatar como todas as três atuam no mesmo terreno: propor temas de caráter geral, sustentá-los através de uma tese, discutir para demonstrar sua validade. Também é fácil constatar que, em dado momento daquele quarentênio, dialética e filosofia aliaram-se contra a retórica, considerada inimiga comum, ainda que esta aliança agressiva estivesse destinada a não durar muito, ou, pelo menos, a entrar em crise com a chegada de Aristóteles.

No entanto, há ao menos de início uma diferenciação que separa a retórica da filosofia. É a mesma diferença que separa o esporte “agonístico” (de competição) do esporte recreativo: à retórica é essencial o critério de ter êxito, de ser eficaz, sobretudo de não fracassar; já à filosofia são essenciais critérios de per se privados de “agonismo”, como a dicotomia verdadeiro-falso, ou bom-mau. Todavia, a retórica não tardou a contagiar a filosofia com seu caráter agonístico, e esta herda a sua agressividade tanto contra a própria retórica, quanto nas polêmicas internas entre as escolas filosóficas. De todo modo, retórica e filosofia têm em comum o fato de serem aventuras eminentemente individuais, infensas a qualquer colaboração de grupo. Já a dialética surge como uma atividade de colaboração; nem sempre é agonística, mas quando o é trata-se de um agonismo de grupo, como o que se dá entre os personagens de um diálogo platônico; é um agonismo que pressupõe de saída um protagonista vencedor e um grupo de comparsas que, com divergências aparentes ou tuteladas, têm a única função de apoiá-lo.

A polêmica de Platão contra Górgias alimentou a convicção de que o agonismo da retórica deve ser entendido como uma arte de ter sucesso a qualquer preço, inclusive através do imbróglio. Mas, já então se tratava, como emana dos próprios diálogos platônicos, de um agonismo bem mais importante e mais nobre: o de conseguir antes de mais nada escolher os melhores temas de discussão. Disso Górgias se gaba, no Górgias de Platão, diante da insidiosa pergunta de Sócrates:

Sócrates: Qual é (...) o tema de que tratam os raciocínios em que a retórica consiste?
Górgias: São os argumentos mais importantes, ó Sócrates, e os melhores dentre as coisas humanas.


Surge aqui a primeira tarefa da retórica: a especificação de temas conceituais de que valha a pena se ocupar. Sua primeira prova agonística é, pois, uma heurística, ou seja, a arte de descobrir temas e conceitos.

O próprio Górgias deu-nos um exemplo memorável dessa arte. Quando Platão ainda era adolescente, provavelmente em 414 a.C., escreveu o célebre Elogio de Helena, atraindo pela primeira vez a atenção do pensamento ocidental para um tema novo que devia apaixonar os intelectuais durante séculos em discussões que perduram até os dias de hoje: o direito que o instinto irracional, a voz dos sentidos, tem de se impor ao lado e até mesmo contra a razão. Contudo o que mais caracteriza essa heurística conceitual da retórica é o inventar, junto com os temas da discussão, também a sua apresentação em imagens e palavras. Por isso a referência aos sentidos em Górgias não é um conceito enunciado apenas teoricamente, mas é o próprio rosto de Helena que trai o marido para seguir Paris e é, ao mesmo tempo, a voz de Paris que consegue convencê-la e levá-la consigo. Por isso a retórica é simultaneamente a arte de inventar temas e conceitos, e de inventar os discursos: o rhéseis, do qual justamente ela empresta seu nome.

Do sucesso do Elogio de Helena ao ataque desfechado contra a retórica no Górgias platônico transcorrem 27 anos, durante os quais Platão teve de assistir impotente aos crescentes triunfos da retórica. Assim, Nietzsche não está de todo errado quando sustenta que o primeiro móbil da ofensiva anti-retórica de Platão no Górgias foi a inveja. Realmente, não há nenhum outro diálogo platônico tão agressivo e cheio de acrimônia quanto este. Mas se a consistência da oposição entre filosofia e retórica residisse apenas numa inveja de intelectuais rivais, ela não poderia ter condicionado tantos séculos de pensamento, como condicionou.

É na sua célebre autobiografia, a Sétima Epístola, que Platão expõe em termos teóricos a oposição entre filosofia e retórica. Ele conta ter sido, na Sicília, preceptor de Dionísio de Siracusa, e que este, dotado de viva engenhosidade, aprendeu rapidamente seus conceitos e logo teve a presunção de se apropriar deles, compondo um escrito à maneira dos retóricos. Mas o que para Platão distingue uma filosofia autêntica é o fato de que ela deve trazer em si os sinais do trabalho mental de que se originou, e esses sinais não são exprimíveis em discursos.

Dionísio... faz passar o que escreveu por coisa sua, não como uma repetição do que ouviu... Mas minha ciência não é uma ciência como as outras; ela não consiste no discurso [ou no rhetón], mas... nasce de um arroubo da alma depois de um longo período de discussões sobre o assunto.

Temos aqui em Platão uma tentativa, já de início deveras discutível, de separar a formulação mental dos temas de sua expressão oral ou escrita, isto é, da sua dizibilidade (rhetón).

Mas se essa dizibilidade não é mais um dos critérios para se avaliar o pensamento, como pretende a retórica, qual deverá ser então o critério superior para se avaliar a filosofia? É precisamente este o problema levantado no final do Sofista, onde o critério supremo de toda atividade mental é a contraposição entre verdadeiro e falso:

Acaso não está claro que pensamento, opinião, imaginação, todas essas coisas surgem no nosso espírito como falsas ou verdadeiras?

Eis que surge, pois, o critério verdadeiro-falso, que, assim como o lícito-ilícito, é um critério não agonístico e, enquanto tal, se contrapõe ao critério agonístico da eficácia e da funcionalidade, típico da retórica. De fato, uma condição indispensável para que possa haver espírito de competição é que o critério avaliatório comporte a possibilidade de uma graduação com base na qual seja possível julgar o que é melhor e o quanto é melhor. Já os critérios que só admitem uma alternativa obrigatória sem meios-termos excluem, com isso, toda possibilidade de graduação.

No Górgias, onde essas distinções teóricas se transformam em polêmica agressiva, a retórica é acusada de ser stochastiké (“que visa ao resultado”, 463a) e, como tal, não é considerada uma verdadeira téchne. E o tema que mais vem à baila no Górgias é precisamente este: a retórica visa ao resultado, enquanto a filosofia visa ao verdadeiro. Daí as comparações que se tornaram célebres: a retórica está para a filosofia assim como a culinária está para a medicina e como a maquiagem e as vestimentas estão para a ginástica. Ou seja, visando apenas ao resultado (ao prazer físico ou ao belo aspecto), ela visa à fachada, não à substância.

A polêmica de Platão contra Górgias, em nome da filosofia contra a retórica, funda-se, pois, no pressuposto de que é possível ter um pensamento verdadeiro mesmo não havendo uma sua expressão eficaz. Convicção que se estenderá ao longo de toda a história do pensamento ocidental, ainda que constantemente acompanhada de freqüentes e vivazes confutações. Basta recordar, no início do século, a de Benedetto Croce na sua Estética:

Ouve-se com freqüência certas pessoas afirmarem que têm em mente muitos e importantes pensamentos, mas que não conseguem exprimi-los. Na verdade, se de fato os tivessem, tê-los-iam cunhado em belas e sonoras palavras e, assim, seriam expressos. Se, no ato de exprimi-los, esses pensamentos parecem desaparecer ou tornar-se escassos e pobres, é porque não existiam ou eram apenas escassos e pobres.

Não há depoimentos que atestem ter Górgias respondido a Platão com alguma confutação desse gênero, ainda que seja lícito imaginá-lo. É certo, porém, que ele se gabava de sua capacidade de inventar e colocar os temas filosóficos, sem os quais a filosofia não teria tido sequer o que discutir. Isso nos é atestado por um depoimento do escoliasta no Górgias platônico:

Górgias, que era verdadeiro hábil, não só estava pronto para se defender, mas colocava ele próprio os quesitos filosóficos.

Um elemento de medição nessa violenta oposição entre filosofia e retórica provém certamente de uma terceira disciplina, a dialética, que sob mais de um aspecto se apresentava como intermediária entre a retórica e a filosofia. Sócrates foi sua figura emblemática, inclusive por seu amor em falar na rua ao público, o que está de acordo com a postura colaboradora da dialética. Ao contrário da retórica, a dialética, do mesmo modo que a filosofia, considera essencial a oposição entre verdadeiro e falso; mas, ao contrário da filosofia, considera não-secundário a formulação dos conceitos. Isso, porém, não à maneira da retórica, que se preocupa com a sua expressão (seu rhetón), mas no sentido de que o pensador já deve prefigurar os esquemas mentais do seu interlocutor, assim como um romancista que ao escrever procura sempre imaginar quem poderá ser o seu leitor. Nesse sentido, a posição de Sócrates e da dialética é melhor expressa, no Mênon de Platão.

Aquilo que na verdade está mais de acordo com a dialética não é limitar-se a enunciar o verdadeiro, mas, sobretudo formular tal enunciação em termos com que o interlocutor possa concordar.

Daí o caráter não individualista da dialética, que a distingue tanto da retórica como da filosofia. Prova disso é que, ao menos na época da sua fundação, ela refutou essa operação tipicamente isolada e individual que é escrever. Não obstante, Górgias e Platão foram escritores, mas Sócrates quis ser somente um dialogador de viva voz. De onde deriva, como se sabe, o próprio termo dialética, de dialéguesthai, que significa “dialogar”.

Como se sabe, Platão, em vez de combater a dialética como fez com a retórica, quis adotá-la, ainda que, ao contrário de Sócrates, considerasse (como Górgias e os outros retóricos) que o pensamento era uma atividade individual, a ser consumado na própria intimidade do escritor. Recorreu então ao estratagema de escrever diálogos com interlocutores que lhe convinham, sempre condescendentes, de modo que o autor é ao mesmo tempo aquele que interroga e aquele que responde. No Crátilon ele admite explicitamente que essa é a sua técnica:

Aquele que é capaz tanto de interrogar como de responder acaso não é chamado dialético?

Infelizmente nem sempre o resultado é brilhante. Por vezes as personagens platônicas não se limitam a mostrarem-se hábeis no interrogar e no responder, mas pretendem plagiar seu interlocutor, chegando ao ponto de sugerir a pergunta que ele deve fazer. É o caso de uma passagem do Górgias:

Sóc.: Quer me fazer... um pequeno favor?
Pol.: Claro
Sóc.: Pergunte-me que arte a culinária é para mim.
Pol.: Pergunto: que arte é a culinária para você?


E a briga continua no próximo artigo: O REPÚDIO DA RETÓRICA E AS DIFICULDADES DA FILOSOFIA. Não perca.

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