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terça-feira, julho 11, 2006

Uma Invenção dos Deuses

Este é o 3º artigo da série História da Escrita. Os dois primeiros são:

01 - Introdução - O Homem e a Escrita
02 - Um Nascimento Humilde

Enquanto os símbolos cuneiformes riscam toda a Mesopotâmia, outros sistemas de escrita nascem e se desenvolvem no vizinho Egito e, também na longínqua China. De uma ponta a outra do mundo, os homens dedicam-se a transcrever sua história sobre a pedra, o barro e o papiro, vendo nisso um presente divino.


A história do antigo Egito teria ficado, sem dúvida, em grande parte desconhecida ou obscura, se Champollion e os egiptólogos não tivessem penetrado no segredo da escrita “hieroglífica” que recobre os inumeráveis monumentos do vale e do delta do Nilo.

Esta escrita, ao contrário da cuneiforme – austera, geométrica, abstrata – é fascinante, poética e viva mesmo! Porque é feita de desenhos admiravelmente estilizados: cabeças humanas, pássaros, animais diversos, plantas e flores.

Thot, o deus da escrita no Egito Antigo
Sumerianos e egípcios habitavam a mesma região do mundo e suas civilizações apresentavam muitos pontos comuns. Assim sendo, os pesquisadores ainda se interrogam sobre eventuais semelhanças entre os pictogramas de uns e os hieróglifos de outros. Contudo, por enquanto, encontram-se no terreno das hipóteses, a pesquisa está longe de ser concluída.


Segundo os antigos egípcios, foi o próprio deus Thot que teria criado a escrita, fazendo dela dom aos homens.

A palavra “hieróglifo”, que designa os caracteres da escrita egípcia, significa, de fato, “escrita dos deuses” (do grego hieros, “sagrado”, e gluphein, “gravar”).

Os primeiros documentos contendo inscrições em hieróglifos remontam ao terceiro milênio a.C., porém, parece que a escrita surgiu anteriormente. Em todo caso, não sofreu nenhuma transformação notável até aproximadamente 390 após Jesus Cristo; até mesmo quando o Egito estava sob o domínio romano! Simplesmente, ao longo dos milênios, o número de símbolos cresceu consideravelmente, passando de 700 a cinco mil, aproximadamente, no momento da ocupação romana.


De repente, os egípcios, contrariamente a seus vizinhos sumerianos, conceberam um sistema gráfico capaz de tudo exprimir.


Ao passo que na Mesopotâmia as inscrições primitivas tornaram-se pouco a pouco “resumos”, e só mais tarde uma escrita, o sistema hieroglífico é, desde sua origem, desde suas primeiras comprovações, uma escrita verdadeira: primeiramente porque reproduz quase completamente a língua falada, língua que pode ainda ser encontrada, na medida em que sobreviveu até nossos dias sob a forma da língua copta (Língua camito-semítica do ramo egípcio, cujas primeiras atestações datam do séc. II, e que é, atualmente, us. apenas como língua religiosa pelos cristãos monofisistas do Egito. ); depois, porque remete a realidades abstratas e concretas, transcrevendo conselhos tanto para a agricultura, a medicina, a educação, quando preces, lendas, direito, e a literatura sob todas as suas formas.

A originalidade e a complexidade dessa escrita se atêm ao fato de ser ela constituída por três espécies de símbolos: os pictogramas, os desenhos estilizados, representando coisas e seres, com combinações de símbolos para exprimir idéias; os fonogramas, os mesmos desenhos ou outros, mas que representam sons (os egípcios utilizavam, mais ou menos, os mesmos procedimentos dos rébus que os antigos sumerianos); e, por fim, os determinativos, símbolos que permitiam saber a que categoria de coisas e de seres pertenciam.


Logo que a “escrita dos deuses” começa a ser decifrada, ao prazer da compreensão une-se o prazer da contemplação.

Tal sistema gráfico, que é uma escrita, é belo e traduz bem a “escrita dos deuses”. Em geral, o nome dos deuses e dos faraós, considerados como deuses, figuram nos textos sob a forma de cartuchos, para que se reconheça o caráter sagrado dessas palavras.

O mais freqüente é que as linhas de hieróglifos sejam lidas da direita para a esquerda. O sentido da leitura é indicado pela orientação, pela direção das cabeças humanas ou dos pássaros: o leitor deve ler indo em direção à face ou ao bico. De fato, não é sempre tão fácil assim. Por exemplo: quando uma inscrição, sobre as faces laterais de um monumento ou de um templo, encontra-se nas proximidades da estátua de um deus importante (Osíris, Anúbis), ou de um faraó, os rostos das inscrições estão voltados em sua direção, o que muda o sentido da leitura e complica sua interpretação. Os hieróglifos podem também ser escritos de baixo para cima, ou, alternadamente, da direita para a esquerda, e da linha seguinte, da esquerda para a direita. Esta última forma é dita “boustrophédon”, literalmente: como o boi que vem e vai, fazendo sulcos na terra, isto é, lavrando a terra.

A “escrita dos desuses” é duplamente sagrada. Primeiro, porque, sem dúvida, a visão dos hieróglifos nos atrai ao ponto da contemplação. Incessantemente, sobre as paredes dos templos, nas faces laterais das tumbas, estão glorificados os inumeráveis deuses do antigo Egito, como se tais hieróglifos constituíssem, eles mesmos, símbolos sagrados. Tais símbolos, gravados na pedra ou desenhados e pintados, possuem uma beleza mais que humana e são, além do que significam, uma espécie de “poemas visuais” que para os antigos egípcios só podiam ser de inspiração divina.

E para nós, apreciadores de tais maravilhas, a emoção é a mesma, o transporte é análogo ao que proporciona a grande poesia, e para os crentes, a oração.

De essência divina, a escrita egípcia, todavia, não é consagrada exclusivamente à expressão religiosa.

Os inúmeros monumentos e documentos encontrados no Egito revelaram, como aconteceu também com a escrita cuneiforme, os múltiplos aspectos de uma grande civilização.

A escrita permitiu aos antigos egípcios perpetuar sua história, estabelecer a relação de seus soberanos, narrar acontecimentos importantes, casamentos reais ou batalhas. No Egito, como em toda parte, a história nasce com a escrita, colocando, pela primeira vez, os fatos históricos em ordem cronológica. Mas ela serve também para fazer a contabilidade, como entre os primeiros sumerianos, estabelecer regras jurídicas, redigir contratos de venda de bens e contratos de casamento. Ela é o veículo da literatura. A literatura egípcia é de extraordinária riqueza, alia gêneros os mais diversos: máximas de moral, hinos aos deuses e aos reis, contos históricos e romances de aventuras, cantos de amor, poesias épicas e fábulas.

Livro dos MortosDentre os mais conhecidos desses monumentos literários figura o Livro dos Mortos, escrito em hieróglifos no período da 19ª dinastia faraônica, isto é, no século XIII a.C. E, finalmente, não esqueçamos os textos geográficos e científicos, nem tampouco todos os que falavam da arte da adivinhação, da magia, da medicina, da farmacopéia, da culinária e, logicamente, da astronomia, a medida do tempo; de lunar, o calendário passa a solar desde o terceiro milênio, enumerando 365 dias e seis horas no ano.



No Egito, como na Mesopotâmia, saber ler e escrever é, ao mesmo tempo, privilégio e poder.

Os escribas eram os mestres da escrita e, por conseguinte, os mestres do ensino era, antes de tudo, ensino aprendido pela escrita.

EscribaUm aprendizado árduo, quando se pensa na complexidade da escrita hieroglífica. Admitidas na escola por volta dos dez anos de idade, as crianças lá ficavam somente alguns anos; os mais dedicados prosseguiam os estudos até a idade adulta. O método empregado pelos mestres egípcios consistia em exercícios de memorização e de leitura; os alunos passavam longas horas salmodiando em coro. A arte de escrever era adquirida por força de cópias e dita os, primeiro, em letras cursivas, depois, em hieróglifos. Os castigos físicos eram eficazes, se acreditarmos no preceito egípcio: “A orelha do menino fica nas costas, ele escuta, quando apanha!” e para os que faltavam à aula, a punição podia chegar à prisão. Os escribas formavam uma casta poderosa. O talento da escrita tornava-os, às vezes, tão poderosos quanto o faraó que lhes dava trabalho, particularmente, quando este contentava-se em ser um deus e se abstinha de aprender a ler, escrever e contar.

Diferentemente de seus pares da Mesopotâmia, os egípcios dispunham de vários suportes para escrever. Pedras, é claro, sobre as quais eram gravados os hieróglifos, mas também de um material leve, fino e mais manuseável, o papiro.



Há cinco mil anos, os escribas já utilizavam a folha, e tinta e a pena.

PapiroO papiro é uma planta que cresce abundantemente nos pântanos do vale e do delta do Nilo. Era empregado para fabricar diversos objetos do dia-a-dia, tais como cordas, esteiras, sandálias e velas de barcos. Seus caules fibrosos permitiram fabricar um suporte que iria revolucionar o mundo da escrita, dando à luz a “folha”. O tratamento consistia em cortar do caule tiras finas, juntá-las, entrelaçando-as. Sobrepondo perpendicularmente duas camadas, obtinha-se uma superfície plana e flexível, pronta para secar por compressão ante de ser polida. Cerca de 20 folhas seguidas eram coladas com pasta de amido, a fim de obter um rolo de vários metros de comprimento.

Para escrever, o escriba desdobrava o rolo com a mão esquerda e enrolava-o com a direita, à medida que o papiro era coberto por inscrições. Dadas as dimensões do rolo (o mais longo chegado até nós mede 40 metros), ele trabalhava, o mais das vezes, sentado como alfaiate, o papiro preso entre os joelhos sobre seu avental.

Folha do papiro sêco e o papiro trabalhadoPara desenhar os símbolos, usava uma varinha de caniço de 20 centímetros cuja ponta era amassada ou modelada de acordo com o que desejava gravar. A tinta preta, muito densa e resistente, era composta de uma mistura de pó de fuligem e água, mais um fixador como a goma-arábica. Os títulos vinham escritos no alto e no início dos capítulos em tinta vermelha à base de pó mínio, um óxido de chumbo.

Monopólio do Estado, o papiro era exportado, desde o terceiro milênio antes da nossa era, para toda a bacia do Mediterrâneo, representando, para o Egito, uma apreciável fonte de renda. Porém, para o país em si, esse monopólio pesou bastante sobre o custo do papiro, fazendo com que escribas e estudantes se sentissem descontentes. Os “palimpsestos”, papiros cujo texto inicial era esboçado para serem reutilizados, atestam o preço elevado dos papiros virgens. Menos onerosas, a pedra calcária ou a cerâmica eram utilizadas para as anotações de menor importância. Quanto ao couro, já conhecido dos antigos egípcios e mais caro ainda do que o papiro, tinha seu uso reservado estritamente para textos de grande valor.


Para responder às necessidades da vida cotidiana, o sistema hieroglífico vai conceber duas outras formas de escrita mais rápidas.

Os desenhos de hieróglifos sobre papiro exigiam muita paciência e minúcia. Ora, tal escrita com seus signos esmerados, sofisticados, era inadequada à vida do dia-a-dia e à rapidez que certos trabalhos exigiam dos escribas. Então, inventaram uma escrita “cursiva” – que corre sobre o papiro – aparecida mais ou menos na mesma época que a escrita hieroglífica, e também chamada de “hierática” (do grego hieros, “sagrado", ou “sacerdotal”, pois, segundo o historiador grego Heródoto, que nos transmitiu tal designação, ela teria sido usada, em sua origem, pelos sacerdotes. Tal escrita apresenta os mesmos fonogramas, determinativos), porém freqüentemente ligados, unidos entre si, distanciam-se, pouco a pouco, do desenho primitivo.

Pedra Rosetta ou Rosetta StoneCerca de 650 a.C. , quando os hieróglifos e a cursiva “hierática” seguem seu curso, aparece uma cursiva mais clara, rápida, ligada (na qual as letras são ligadas entre si), lida, como a escrita hierática, da direita para a esquerda. É a escrita “demótica” ou “popular”, que será a escrita corrente no Egito. Na famosa Pedra de Roseta, pela qual Champollion desvendou o segredo dos hieróglifos, figura o mesmo texto escrito em hieróglifos, em demótico e em grego. E percebe-se que é muito difícil para um não-especialista reconhecer, a partir de caracteres demóticos, os hieróglifos originais.

Entretanto, possuímos ainda hoje traços dessa escrita: do mesmo modo que a língua copta permitiu reencontrar a língua falada pelos antigos egípcios, também sobreviveram, na escrita copta, alguns caracteres provenientes da escrita demótica. Por isso, Champollion dizia que, para compreender a escrita hieróglifa, se fazia necessário, antes de tudo, ler a escrita copta.


A Mesopotâmia e o Egito liberaram o segredo de suas escritas, porém a de Creta antiga continua, até hoje, um enigma.

No momento em que a escrita cuneiforme tomava seu aspecto quase definitivo, quando a civilização egípcia conhecia um fabuloso desabrochar e os escritos hieroglíficos multiplicavam-se, lá pelo segundo milênio a.C., desenvolviam-se em Creta, e, sem dúvida, na Grécia continental, escritas que se tornaram problema para os pesquisadores.

A partir da metade do século XIX, principalmente, foi descoberta, nas ruínas da antiga cidade de Cnossos, uma grande quantidade de fragmentos cobertos de inscrições.

Disco de FaístosTais hieróglifos estão gravados ora em sinetes de esteatita (pedra fina, fácil de trabalhar), ora inscritos no barro, como o famoso “disco de Faístos”, um dos maiores enigmas desta história: em 1906, arqueólogos italianos descobriram em Creta um disco de barro coberto, em cada face, por 45 signos enrolados em espiral. Ninguém, até hoje, conseguiu decifrá-lo.


Na outra extremidade do mundo, a China inventa, dois mil anos a.C., a escrita que perdura até hoje.

A escrita chinesa é um caso único: nascida por volta do segundo milênio a.C., codificada lá por 1500 antes de nossa era e constituída em sistema coerente entre 200 a.C., e 200 d.C., é perceptivelmente a mesma que os chineses lêem e escrevem hoje.

No atual Egito, assim como na Mesopotâmia contemporânea (o Iraque), a escrita árabe tomou o lugar há muitos séculos dos hieróglifos e do cuneiforme. Mas a escrita chinesa é a mesma e sempre escrita chinesa. Certo, em outros tempos, os caracteres chineses eram traçados – mais exatamente lindamente desenhados – tradicionalmente com pincel e tinta (da China!); hoje, os chineses utilizam uma caneta ou uma esferográfica. Certo, as máquinas de escrever e de imprimir são dotadas de caracteres sem grossos e finos, mas, na essência e salvo modificações encontradas para simplificar, a escrita chinesa continua fiel a suas origens.


Como os egípcios, os chineses, atribuem um nascimento lendário à sua escrita.


Segundo a lenda, três imperadores estariam na origem da escrita, notadamente o imperador Huang-Che, que teria vivido no século XXVI a.C. e teria encontrado a escrita após haver estudado os corpos celestes e objetos naturais, em particular os vestígios, as pegadas de pássaros e animais. Segundo o poeta Wu Weiye, aparentemente a pior das invenções: “Huang-Che chorava na noite: tinha por quê.”.

Muito mais esclarecedora foi a descoberta acontecida após a cheia de um afluente do rio Amarelo em 1898-1899 que revelou fragmentos de cascos de tartaruga e omoplatas de cervo. Sobre esses fragmentos, estavam gravadas inscrições, os mais antigos traços da escrita chinesa.

Viviane Alleton, especialista em escrita chinesa, conta que “os sacerdotes gravavam suas perguntas sobre uma das faces do casco de tartaruga, aproximavam a outra face do casco do fogo (aceso a leste) e a resposta à pergunta feita deveria ser deduzida segundo os estalos e rachaduras produzidos pelo calor. (...) Os caracteres da indagação eram gravados de cima para baixo em colunas. (...) Tais caracteres, em seu princípio e suas estruturas, são idênticos aos atualmente em uso”.

O pictograma, elemento de origem, elemento-chave de todas as escritas, subsiste, ainda hoje, nos caracteres chineses.

Em quase todas as civilizações, a aventura da escrita começou por um idêntico primeiro capítulo: tanto nos antigos chineses quanto nos sumerianos, egípcios, hititas ou cretenses, os primeiros signos traçados foram, invariavelmente, desenhos, pictogramas e combinações de pictogramas. Além disso, certos pictogramas provenientes de civilizações bastante diferentes apresentam semelhanças surpreendentes.


A escrita chinesa obedece a uma série de regras sutis que fazem dela uma arte verdadeiramente poética.

Muito rapidamente, os pictogramas foram se estilizando, embora subsistam ainda nos caracteres chineses vestígios bastante visíveis dos pictogramas primitivos, dando a essa escrita uma caligrafia de dimensão poética, particularmente manifesta nas combinações de certos caracteres. Por exemplo: se acrescentarmos ao signo “orelha” o signo “dragão”, obteremos um signo composto, significando “surdo”.

Porém, a “chinesice” mais importante da língua e da escrita chinesa consiste em um único som pronunciado podendo significar, segundo sua grafia, várias coisas. Assim, o som “shi” pode significar “saber”, “ser”, “poder”, “mundo”, “juramento”, “abandonar”, “pôr”, “negócio”, “amar”, “ver”, “velar por”, “contar com”, “andar”, “tentar”, “explicar”, “casa” etc.

O que nos obriga a dizer que a escrita é, mais do que a língua falada (a do norte totalmente diferente da do sul), o elemento maior da unidade lingüística da China.

Cada signo deve estar inscrito em um quadrado perfeito. Em geral, é composto de uma chave, que lhe dá sentido (ou o essencial do sentido), e de uma parte fonética indicativa de sua pronúncia. Os caracteres (signos) devem ser desenhados, tendo os traços que os compõem em ordem exata. O chinês “do dia-a-dia” é lido da esquerda para a direita, ao passo que o chinês erudito e da poesia é lido do alto para baixo e da direita para a esquerda.


O próximo artigo a ser postado é A REVOLUÇÃO DO ALFABETO. Em breve

1 Comments:

Anonymous Letícia said...

Este blog é maravilhoso, muito completo!

12:13 AM  

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